Perdera o sapato em algum lugar... O do pé direito. Não lembrava bem a cor do sapato - estava embriagado demais para isso (devia ser marrom)... E mesmo que lembrasse não faria diferença, pois ele não sabia ao certo onde e como o perdera... Além disso, as cores não eram tão importantes para ele... Tudo parecia ser mais cinza do que o cinza normal de cada dia... O chão gelado e sujo causava um ligeiro incômodo e uma terrível sensação de miséria, e apesar de seu estado lastimável, ele reconhecia isso. Sabia da sua situação. Ele sabia das coisas... Sempre foi muito observador, muito esperto... Não tinha noção clara do que estava fazendo ali, mas de alguma maneira, ele reconhecia que não estava bem. “A que ponto eu cheguei... (?)” – Vivia se perguntando. Ele sabia que a bebida não resolveria os seus problemas, e que vivia perdendo o tempo com bobagens, que precisava perder peso, que tinha que parar de fumar, que devia abraçar mais os filhos e beijar sua mulher com amor... Sabia... Só sabia... Parece que ele se esquecia disso tudo com muita facilidade, ou que ele não queria lembrar que sabia disso tudo. Não sabia se ouvir... Apesar de escutar mil vozes gritando em sua cabeça naquele momento enquanto ele cambaleava... Vozes que vinham correndo, gritavam alguma coisa sem sentido e iam embora, se escondiam em algum lugar em sua cabeça... Segurava firmemente uma garrafa de uísque quase vazia. O céu, pra variar, estava cinza também - parecia que ia chover, mas ele sabia que não iria... Seria muito óbvio e muito clichê... Um passo de cada vez. Passou a mão pelo rosto e subiu até chegar nos cabelos, desarrumando-o ainda mais... Suspirou. Não queria mostrar desespero, mesmo não havendo mais ninguém ali. Outro passo. Tomou o resto do uísque numa golada só, sequer sentiu o gosto da bebida. Mais um passo. Largou a garrafa... E pôs as mãos sobre o parapeito. Ao tocar a ardósia sentiu um arrepio subir sua coluna – estava mais gelada que o chão. Foi lentamente inclinando sua cabeça para ver a altura. Sua gravata ficou suspensa no ar e aquilo o deixou nervoso. E muito. Afastou-se um pouco do parapeito. Permaneceu estático por longos 5 minutos, ouvindo o som dos carros lá embaixo... Olhos vidrados, sem piscar. Sem pensar em nada... Sem conseguir pensar em nada... Voltou a olhar pra baixo. Sua respiração tornou-se mais rápida, rangeu os dentes... Um ódio mortal do mundo se instaurou dentro dele! Subiu rapidamente no parapeito, como se não estivesse bêbado e como se tivesse total certeza de que saltaria!... Mas parou... Talvez tenha sido o vento... Estava ofegante, olhando para baixo... Não estava firme sobre seus pés... Os dedos do pé descalço já estavam além da beirada... Pensou em sua morte... Pensou em como a vida tinha sido difícil para ele e em como o mundo sequer ligava para os seus problemas. Essa seria a forma dele se expressar... Analisou a situação em um milésimo de segundo. Começou a rir baixinho... Rir de si mesmo... As risadas foram aumentando e se transformando em uma gargalhada histérica! “OLHA A QUE PONTO EU CHEGUEI!!” e ria. Ria de si mesmo... Achou aquilo tudo ridículo... Quando ele finalmente parou para tomar ar, foi surpreendido pelo seu próprio grito. Um grito de socorro... ou de liberdade, não se sabe... (Ele também não sabe) Seguido de um choro forte, de soluçar... Por que do choro? Não era por causa dos seus problemas... Era porque ele sabia desde o início!... Sabia que não conseguiria novamente... Ele sabia que não teria coragem para fazer! Ele sabia disso e sabe que tem razão em não saltar! Sabe que, no fundo, ele não quer isso, e que ele se envergonharia de sua atitude, e que, mais no fundo no fundo ainda, ele faria isso com certo orgulho... Orgulho de sofrer calado, orgulho por chamar atenção do mundo, da maneira como ninguém se preocupa... Orgulho por ter dado o recado. Mas ele sabe que não valeria à pena... Ele chorava por saber demais das coisas... Desceu do parapeito, trêmulo, encolhido... De certa forma humilhado e envergonhado... Sentou-se e esparramou-se pelo chão da cobertura... Esperou sua embriaguez passar enquanto fumava o seu último cigarro... Sua cabeça explodia... Ligou para sua mulher avisando que chegaria mais tarde em casa e inventou uma desculpa qualquer... Ficou por ali mais alguns minutos... Brincando de não pensar e se distraindo com coisas simples, como por exemplo, quantas vezes ele conseguiu ouvir risadas vindo lá de baixo na rua, ou tentando abotoar os botões de sua blusa com uma mão só, ou lendo o rótulo da garrafa de uísque e calculando quanto de álcool ele havia ingerido... Coisas assim, apenas coisas... Bebeu as ultimas gotas que se juntaram no fundo da garrafa... Levantou-se e caminhou ainda um pouco zonzo até o elevador... Sentiu uma gota cair no seu nariz, outra no seu rosto, escorrendo pela curva da bochecha, seguindo o caminho já descoberto pelas lágrimas... Começou a chover, afinal de contas... E isso ele não esperava... Disso ele não sabia... Ele não sabia de nada... O elevador chegou... Entrou, ajeitou sua roupa e olhou fixamente para o parapeito... Imaginando que provavelmente estaria ali novamente dentro de alguns dias... Ou algumas horas... Imaginando se seria diferente algum dia, se ele teria coragem para saltar... Ou para enfrentar o mundo, tanto faz... a porta se fechou... Enquanto o elevador descia, olhou para o chão, para seu outro pé, o que estava calçado... Seu sapato era marrom mesmo...
Gabriel Corrêa
8/9/11
8/9/11
fiquei comovida de verdade. (Isa aqui)
ResponderExcluirCurti muito.
ResponderExcluirFui sentindo uma sensação de oscilação enquanto lia, tanto pela estruturação quanto pelas palavras mesmo, o modo como uma frase se contradiz com outra anterior, como ora ele sabe de tudo, ora não sabe...
E achei o final genial =)
Muito doido, de verdade. Imaginei tudo como num filme...me deu idéias aqui. xD
ResponderExcluir