Não vicie em pessoas.
Não vicie em pessoas!
Te digo mais uma vez – Não... Vicie... Em pessoas!...
Talvez você não entenda o que eu quero dizer. Provavelmente você deve estar pensando: “Viciar em pessoas?! Esse cara fumou merda ou o quê?” ...Fumar? Em cigarro você pode viciar... Álcool, trabalho, comida, químicos, jogos, Internet, sexo... Em tudo isso você pode viciar, não tem tanto problema... Mas em pessoas... Jamais!
Por quê? Simplesmente porque esse é o vício mais perigoso de todos! É o que mais causa dependência, o que mais possui efeitos colaterais, o que mais deixa seqüelas, o mais difícil de se perceber e, acima de tudo, o mais difícil de largar...
Sabe o que é mais triste? É que a princípio nos viciamos por uma boa causa! Nos viciamos sem querer, nos viciamos sem saber, nos viciamos pelo outro...
Nos viciamos por Amor!
Sim, por amor!
Por amar uma pessoa... Por amar tanto, mas tanto essa pessoa, que no meio daquela explosão de emoções e sentimentos, acabamos nos entregando tão intensamente, tão cegamente que acabamos nos perdendo!... Acabamos ficando sem chão... Sem rumo! Abafamos nossas vontades, ignoramos nossos sonhos, nossos desejos e nossos objetivos em função daquela pessoa! E você se entregou tanto a ela que você nem percebe que já não consegue mais andar sem ela...
Ficar sem pensar nela...
Viver sem ela!
Você acaba se esquecendo de você, pra se lembrar dela...
Mas que mal há nisso! Por que não? Por que não se entregar por completo? Qual o problema de amar alguém tanto assim? Dessa forma nós vivenciamos experiências incríveis, sensações tão envolventes, paixões tão ardentes! Ama tanto esse alguém que você se esquece do resto, porque você não precisa de mais nada! E isso, de fato, é maravilhoso!
Mas o problema é a dependência que se cria quando nos viciamos... Ficamos tão drogados que esquecemos completamente da dura realidade de que nada nessa vida dura para sempre... E que mais cedo ou mais tarde você vai acabar tendo que se separar dessa pessoa... Seja pela distância, por uma briga, por uma viagem... Por uma mudança, uma fase, uma oportunidade... Por um acidente, uma mentira, uma traição, por um outro alguém... Pela morte...
Ou às vezes por motivo nenhum!...
Mas a toxina do amor altera nossa noção de tempo... Forçamos nós mesmos a acreditar que deve ser assim... Imutável, eterno... Queremos ser sempre para sempre!
...
Às vezes... O pingo de consciência que restou em você tentava te alertar...
Algo parecia errado... Você sentia que as coisas não estavam indo bem... Sentia que não deveria continuar... Sentia que era quase certo que vocês já não deveriam estar mais juntos!...
Mas você não tem coragem...
Não tem coragem de acabar com aquilo... Você não é forte o suficiente para machucar essa pessoa... Você não tem moral para fazer ela sofrer! Porque você sabe que ao ver no rosto dessa pessoa escorrer uma lágrima por sua culpa, você se sentiria o maior covarde da face da Terra!...
E é por causa disso, por amor... Por medo... Por egoísmo ou por vício, que você acaba tomando uma atitude mais covarde do que fazer a coisa certa...
Você se mata.
Se mata pela outra pessoa! Se abafa! Se entrega ainda mais pra ela! Se escraviza... Se engana... Se corrompe...
É aí que você se torna absolutamente dependente, submisso a essa droga de pessoa!!
Mas esse vício é tão perigoso, que não percebemos que estamos viciados!... Já nos cegamos demais para entender isso... Tão cegos, que não vemos que agir dessa maneira é a pior coisa a se fazer...
Porque não enxergamos que se matar pelo outro,
É matar o outro também!...
E finalmente o fim chega ao final... Aí você se dá conta da sua situação!... Porque você vê aquela pessoa, o seu amor, a sua droga ir embora! E vai também a parte sua que você entregou pra ela! A parte sua que você descartou, deixou de lado... Então você se sente perdido!...
Sozinho...
Abandonado... E ao mesmo tempo, vazio de si! Porque sem ela não tem você!...
E aí começam os sintomas da abstinência... Tudo, absolutamente tudo, as cores, os cheiros, os gozos, as outras pessoas, a vida!... Tudo não tem mais o mesmo gosto de antes... As coisas não têm mais forma, não têm mais sentido... Não têm mais importância... Tudo se torna tão duro! Seco! Frio! Estático... E as coisas passam... E só passam sem deixar rastro, nem lembranças... E você se perde em seus pensamentos, em suas dúvidas, em sua ausência! Se enlouquece tentando achar possíveis respostas para todas aquelas perguntas sem solução! Se esconde de si... Vítima da insegurança, do medo, da culpa, da vergonha... Sem chão, sem ar, sem nada! Bebendo do seu próprio veneno.
Mais todo tratamento demanda tempo... E por mais que toda essa loucura parece não passar, essas crises de abstinência vão se esgotando... E você desiste de tentar desistir... Entende que você só começa a viver quando decide parar de morrer! E pouco a pouco vai se levantando, recobrando sua consciência, reconstruindo aquilo que se perdeu!... E devagar a vida vai ganhando mais e mais vida! As cores vão ressurgindo, as vontades vão te movimentando e os desejos te impulsionando... Quando se vê, após uma longa, caótica e dolorosa batalha consigo mesmo; você está de pé! Intacto! Refeito! Renascido! Muito mais maduro... Mais forte e pronto para viver novamente!
Desintoxicado!
E você olha pra trás... Vê tudo aquilo que você passou e aprende com todo esse sofrimento que te lapidou! Você levanta a cabeça, olha pra frente e segue seu caminho, disposto a amar novamente! Mas dessa vez, se respeitando, se conhecendo... Se entregando sem se perder! Ciente de si e experimentando momentos, sensações e vivências incríveis que o amor nos proporciona!
Essa é a maldição do Amor:
È ao mesmo tempo a droga e a cura.
Por isso, não vicie em pessoas...
Não ame por vício...
Mas sim,
Vicie em amar!
Basta saber dosar... Afinal de contas, tudo em excesso faz mal.
Gabriel Aires Corrêa de Sá
Eu tentei estabelecer essa relação entre amor e vício uma vez, num texto muito mais curto... Mas não consegui chegar nem perto do que você fez aqui. Pra mim um texto como esse, tão verborrágico, com um ritmo tão expressivo, e composto de palavras e construções tão sinceras, não deve ser (apenas) lido: deve ser declamado ou interpretado também.
ResponderExcluirMuito bom, Gabriel. Muito bom mesmo.
Como a Paulinha disse no comentário anterior, seu texto parece fluir por ele mesmo! =)
ResponderExcluirEnquanto você lê, você consegue declamar mentalmente, consegue sentir a inconformidade do eu lírico e partilhá-la com ele =)
Genial o texto! De verdade! =)
E o final tá sensacional =)
Parabéns e poste mais textos! :D